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11/04/2019

Porque hoje é quinta

Vem à Quinta-feira de Filipa Leal.


"Vem à Quinta-feira.


É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris

for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.


Vem à Quinta-feira.


A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,

e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.


Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.


Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo

não é caro:

- viajar de auto-caravana,

- dançar pela Estrada Nacional,

- ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.


Vem à Quinta-feira.


Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.


Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta."

28/03/2019

Teatro

Antes do meu despertar para o teatro, os meus mestres já lá estavam. Tinham construído as suas casas e as suas poéticas sobre os vestígios das suas próprias vidas. Muitos deles não são conhecidos ou ninguém os recorda: trabalharam a partir do silêncio, na humildade das suas salas de ensaios e dos seus teatros cheios de espectadores e lentamente, após anos de trabalho e feitos extraordinários, foram deixando o seu lugar e desapareceram. Quando percebi que o meu ofício e o meu próprio destino seria seguir os seus passos, entendi também que herdava deles essa tradição fascinante e única de viver o presente sem outra expectativa que alcançar a transparência de um momento irrepetível. Um momento de encontro com o outro na penumbra de um teatro, sem mais protecção do que a verdade de um gesto, de uma palavra reveladora.
O meu país teatral são esses momentos de encontro com os espectadores que, noite após noite, entram na nossa sala, vindos dos cantos mais distantes da minha cidade para nos acompanhar e partilharmos umas horas, uns minutos. Com esses momentos únicos construo a minha vida, deixo de ser eu, de sofrer as minhas dores e renasço e compreendo o significado do ofício de fazer teatro: viver instantes de pura verdade efémera, onde sabemos que o que dizemos e fazemos, ali, sob a luz dos projectores, é verdadeiro e reflecte o mais profundo e o mais pessoal de nós próprios. O meu país teatral, o meu e o dos meus actores, é um país tecido desses momentos onde abandonamos as máscaras, a retórica, o medo de ser quem somos e nos damos as mãos na penumbra.
A tradição do teatro é horizontal. Não há quem possa afirmar que o teatro está em algum centro do mundo, em alguma cidade, em algum edifício privilegiado. O teatro, tal como eu o recebi, espraia-se por uma geografia invisível que entretece as vidas dos que o fazem e o ofício teatral num mesmo gesto unificador. Quando morrem, todos os mestres do teatro levam consigo esses momentos de lucidez e de beleza irrepetíveis; todos desaparecem do mesmo modo sem deixar outra transcendência que os ampare ou faça ilustres. Os mestres do teatro sabem-no, não há reconhecimento que valha perante esta certeza que é a raiz do nosso trabalho: criar momentos de verdade, de ambiguidade, de força, de liberdade na maior das precaridades. Deles não sobreviverão senão dados ou registos de trabalhos em vídeo e fotografias que recolheram apenas uma pálida ideia do que fizeram. Faltará sempre nesses registos a resposta silenciosa do público que entende num instante que o que ali se passa não tem tradução possível nem se encontra fora de cada um, que a verdade que ali se partilha constitui uma experiência de vida, por segundos mais diáfana do que a própria vida.
Quando compreendi que o teatro é, em si mesmo, um país, um território que abarca o mundo inteiro, nasceu em mim uma decisão que é também uma liberdade: não tens de te afastar ou mover-te do sítio onde te encontras, não tens de correr ou mudar de local. Aí, no ponto em que existes, está o público. Aí, tens a teu lado os companheiros de que necessitas. Ali, fora da tua casa, está toda a realidade quotidiana, opaca e impenetrável. Trabalhas então a partir dessa aparente imobilidade para construir a maior das viagens, para repetir a Odisseia, a viagem dos argonautas: és um viajante imóvel que não cessa de acelerar a densidade e a rigidez do teu mundo real. A tua viagem ruma ao instante, ao momento, ao irrepetível encontro face aos teus semelhantes. Viajas ao seu encontro, rumo ao seu coração, à sua subjectividade. Viajas por dentro deles, das suas emoções, das suas memórias que despertas e agitas. É vertiginosa e ninguém pode medi-la ou calá-la. Também ninguém poderá reconhecê-la na sua justa medida, é uma viagem através do imaginário da tua gente, uma semente que se semeia no mais remoto dos terrenos: a consciência cívica, ética e humana dos teus espectadores. Por tudo isto, não me movo, continuo em minha casa, entre os que me são próximos, numa aparente quietude, trabalhando dia e noite, porque tenho o segredo da velocidade.

Nada a acrescentar. A não ser: Vão ao teatro! Onde quer que estejam. Com quem estejam. A vida a acontecer e no pensamento, ver espetáculos! Sempre que possível! Só assim conheceremos a nossa geografia interior.


07/09/2018

Impossível não partilhar


Quando a arte nos toca... É tão mas tão bonito...

14/08/2017

Captain Fantastic

Viggo Mortensen e Annalise Basso em Captain Fantastic. (Fotografia de Wilson Webb)

Quando ontem senti a energia com que falavam do filme Captain Fantastic foi impossível ficar indiferente. Portanto hoje à tarde dediquei-me ao filme. E que filme! Entrou para os filmes preferidos. Como não?
Fotografia muito boa e uma história que cativa, nos envolve. O meu coração riu, sofreu, chorou... Um filme que já apetece rever para absorver alguma coisa que me possa ter passado. Para me demorar um pouco mais. E para confirmar uma vez mais o que já sabia: que o segredo está sempre no equilíbrio.
"Harper: Ben, you sound so ridiculous.
Ben: Is knowing how to set a broken bone or how to treat a severe burn ridiculous? Knowing how to navigate by the stars in total darkness, that's ridiculous? How to identify edible plants, how to make clothes from animal skins, how to survive in the forest with nothing but a knife? That's ridiculous to you?"
Obrigada Joana!

*p.s - Fazes um post com filmes imperdíveis para incultas como eu?

14/07/2017

Como se não existisse nada

Partilhei no Instagram esta fotografia da estação da Bela Vista acompanhada com estas palavras:

"Querubim Lapa quantos passarão por ti sem te (re)conhecerem?
Saberão que moras também no hotel Ritz em Lisboa ou na tão adorada António Arroio?
.
Se a arte não é vista existe na mesma?"
Desta partilha surgiu uma sugestão nos comentários, que visse o Como se não existisse nada de Sibila Lind. Fica o trailer para provocar a curiosidade...
E o filme completo aqui para quem quiser ver. Uma história de amor, um artista que se encontra connosco em tantos lugares. (É o artista com mais obras em espaços públicos do país e nenhuma cidade tem tantas como a capital.)

04/05/2017

Poetry Slam Lisboa

Gosto de ouvir os poetas Sarah Kay e Phil Kaye que interpretam poesia (poderiam ser irmãos, ou um casal, mas são só amigos. Podem ver aqui como tudo começou e de como a história se toca em tantos pontos).
A spoken poetry/poetry slam (poesia interpretada) também existe em Portugal. Tenho que ver se consigo ir aos próximos eventos do PortugalSLAM!, e quem sabe um dia interpretar a poesia que ainda está por escrever neste coração desregulado. Alguém gostava de vir também?
O meu primeiro contato com este tipo de poesia foi com a Sarah Kay (TED Talk)

Mas o meu preferido é este:
When Love Arrives
Este faz-me sentir o amor como ele é. Imperfeito e esquisito. Descompassado. Diferente. Improvável. Estatisticamente improvável. Sem regras. Sereno e agistado. Como imagino que o amor seja. E oiço-o uma e outra vez, quase que o sei de cor. E as palavras atropelam-se... Haverá capacidade para decifrar o que está enterrado há tanto tempo?

25/04/2017

Imaginação das Cores

No início do mês fui com a Marta, do Viver a Viajar à Imaginação das Cores em Benfica. Conheci a loja com uma amiga que trabalhava na zona de Benfica e há anos que é a minha referência para comprar materiais para os trabalhos manuais.
A Marta só dizia que tinha chegado ao paraíso. Mas que este paraíso tinha um problema: apetece levar tudo e a carteira não acompanha a vontade de criar. Ainda assim esta é a loja que mais frequento para comprar materiais. É a minha loja de referência porque habitualmente é mais barata do que a Ponto das Artes ou a Papelaria Fernandes.
Neste dia aproveitei ainda para fotografar a Marta de forma natural. Estou a criar a LucieLu Fotografia - fotografia documental a preto e branco. Sem interferências da minha parte, só uma conversa boa de pano de fundo e o resto é deixar a vida fluir. 
Podem ver todas as fotografias da sessão aqui: LucieLu Photography.

Obrigada Marta!
Lucie Lu © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.